UOL Cinema

Cuba na Cam

16/07/2012

Martha Marcy May Marlene

Martha Marcy May Marlene (USA, 2011, de Sean Durkin).

Esse é o primeiro longa do diretor americano Sean Durkin, que ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Sundance 2011. É um filme de uma sobriedade invejável – ainda mais tendo em conta o país de produção – e de um minimalismo que nunca é chato, e nunca deixa de interessar. É a história de Martha (interpretada pela ótima revelação Elizabeth Olsen, irmã menor das peruas gêmeas Olsen) uma jovem dividida entre seu passado em uma bizarra comunidade campestre meio hippie meio nazi, e sua chegada à casa de sua irmã, recém casada e burguesa.  Os envolventes e sufocantes ambientes sonoros e as interessantes maneiras de fazer flashbacks constroem de uma maneira cheia de suspense o drama de Martha (às vezes Marcy May, às vezes Marlene), um ser em constante inadequação – seja no ambiente de falsa liberdade libertina, seja no lugar do capitalismo selvagem (representado pela imensa casa da irmã e de seu cunhado yuppie): um pouco como eu vou me sentir depois de sair dessa escola/fazenda. Martha Marcy May Marlene” é uma ótima reflexão sobre a falta de novas ideologias (e a corrupção das antigas) e de propostas de como ver e viver o mundo.  O final do filme diz literalmente: não há para onde ir e esse personagem sempre vai ser chamado a aderir a um mundo o ao outro, embora sinta que não pertence a nenhum lugar.

 

Eu e Lucrécia - destruicao total pós-avaliacao

Eliseo Altunaga - ele não está dormindo

Fala Lucrécia

Minha avaliação

Por Gustavo Vinagre às 11h49

A Tese

Faltam duas semanas para a festa de graduação. Frio na barriga completo e absoluto. E eu, claro, na loucura de escrever minha tese, ser avaliado, etc, não escrevo aqui faz muito tempo. Por isso, vou tentar fazer uma retrospectiva do que aconteceu nos últimos dois meses.

Cenas e Sequencias por Lola Mayo - Curso de “Cenas e sequências para a tese” com a roteirista espanhola Lola Mayo (“El muerto y ser feliz”, “La Mujer sin Piano”, “Lo que sé de Lola”).  Bom, no meu caso, o trabalho foi muito mais complexo que ajustar cenas. Estava descontente com meu roteiro já escrito, e sentia que embora pudesse funcionar não era o que me urgia contar. Sabia que não podia me graduar com algo simplesmente correto e que não refletisse minhas inquietações mais profundas. Foi assim que me livrei dessa história anterior, e me joguei numa empreitada arriscada, já que faltava pouquíssimo tempo para entregar a versão final para a avaliação. Lola passou então de uma simples assessora a ser minha tutora da tese. Com ela, construí uma história coral, sobre o caos da cidade de São Paulo, uma mescla entre documentário e ficção, que a princípio se chamava “São Paulo SM”, depois “São Paulo XXX” e por fim, “Felis Domesticus”.  No processo com Lola, cheguei a uma primeira versão satisfatória. Minha inspiração maior foi São Paulo, personagens que conheci, crimes reais divulgados pela mídia, e o filme “Canções do Segundo Piso” de Roy Andersson.  Escrevi o roteiro de 80 páginas de uma vez, em uma semana, e descobri que esse é o processo mais satisfatório para mim. O processo ensinado pela escola, começando por story-line, seguido de sinopse, argumento, etc, simplesmente acaba com o meu interesse pela história e freia meu processo criativo. Isso para mim foi um dos maiores aprendizados.

Diálogos por Maria Novaro - O curso seguinte foi de “Diálogos para a tese” com a roteirista mexicana Beatriz Novaro (“El princípio de la espiral”, “Viaje Redondo”, “Danzon”, “Lola”). O curso foi tranqüilo, Maria é uma pessoa elegante que transmite muita confiança. Foi ela que me alertou para ter cuidado com a reescritura excessiva e suas conseqüências daninhas, afastando o escritor de idéias iniciais que em geral são boas. Ela estava contente com o resultado do meu roteiro e me ajudou a me sentir seguro do que eu tinha. Vimos juntos “Danzón”, filme roteirizado por Beatriz e dirigido por sua irmã Maria Navarro que também estava dando um curso na escola, e foi emocionante – um desses filmes que qualifico como naif”, que sempre me impressionam quando vejo, porque com super pouco conseguem transmitir doçura: algo que pode ser super brega no cinema.

Roteiro desde a direção por Paula Marcovitch- Em seguida, veio o curso “O roteiro desde a direção”, com a roteirista e diretora argentina-mexicana Paula Marcovitch (roteirista de “Temporada de Patos”, “Lake Tahoe”, entre outros, e diretora do sensacional “El Premio”). Paula também estava muito contente com meu roteiro, embora tenha proposto um interessante exercício. Definir para mim mesmo cada um dos conflitos dos meus mais de 40 personagens (!!!), para assim poder fortalecer o clímax de cada um deles, já que ela via que o filme se tornava repetitivo ao se aproximar do final. O trabalho com Paula foi super interessante. Vimos seu primeiro filme como diretora “El premio” e o comparamos com o seu roteiro original. Já tinha visto o filme no Festival de Havana, e todos deveriam vê-lo: é incrível. Fizemos o mesmo exercício com “O Silêncio” de Bergman, que escrevia seus roteiros como se fossem contos. O mais lindo que ela me ensinou sobre roteiro veio da idéia – que defende a unhas e dentes – de que o roteiro é e deve ser considerado como uma obra literária em si, assim como uma peça de teatro. Para Paula, os roteiros deveriam ser publicados inclusive antes de virarem filmes e os formatos pré-estabelecidos de escritura só existem para
que os filmes se pareçam todos entre si. Paula é uma revolucionária, ela tem raiva dentro dela, e adoro seus radicalismos: “Um roteiro não tem nada de específico, a poesia não tem nada de específico, o teatro não tem nada de específico, nem o cinema. Se está projetado num cinema, é cinema. Se é um livro de poesia, o que está dentro é poesia. Se está num palco, é teatro. A pureza dos meios é uma ilusão, e buscar o específico de cada meio é uma idiotice. Agora mesmo, você pode sair com um poema e filmá-lo sem sequer fazer uma adaptação. Atualmente, a
situação do roteiro é um paradoxo. É literatura feita para não ser lida, serve apenas para que um assistente de direção e um produtor rabisquem coisas com suas canetas”. É polêmico e eu adoro.  Muito do que aprendi com Paula também veio em conversas no bar da escola, em geral sobre produção e sobre a necessidade de um artista cuidar sua obra, desde a escritura, passando pela direção e produção. Paula
sempre esteve descontente do resultado dos filmes feitos a partir dos roteiros que escrevia. Depois de anos escrevendo roteiros e reclamando da direção alheia, decidiu dirigir. Todos diziam: “agora você vai parar de reclamar e ver o que é de verdade a direção”. Ela dirigiu e calou a boca de todos. “El Premio” foi premiado no mundo todo e o mais importante: é um filme estupendo.

Hospital Nacional
- Depois desse “último curso”, tivemos algum tempo livre para reescrever e entregar a tese. Entreguei a tese e em seguida adoeci, com uma
infecção pulmonar e uma sinusite aguda, que me fizeram passar 20 dias no hospital Nacional em Havana tomando antibiótico na veia, com febre e uma dor de cabeça insuportável. Fui super bem atendido - em partes por ser estrangeiro - fizeram muitos exames, um check up completo. No entanto, a falta de infra-estrutura ainda pode chocar a algumas pessoas. Apesar de ter bons equipamentos (fiz duas tomografias em duas máquinas diferentes) o prédio do hospital tem água caindo pelo lado de fora 24 horas por dia por um problema na caixa de água – quem vê de dentro pensa que está chovendo. Eu estava internado no melhor quarto do hospital: um quarto para 5 pessoas com um banheiro mínimo onde quase nunca tem água. Você precisa buscar água com um balde em outro andar do hospital para tomar banho e dar descarga. Enfim, detalhes que para alguns podem parecer estranhos, mas que para qualquer cubano é normal e, pelo menos no meu caso, foram facilmente esquecidos pela simpatia dos cubanos que me atendiam e pelo profissionalismo dos médicos.

Pitch
-
De volta à escola, eu tive apenas um dia para organizar meu pitch, que foi feito na quinta-feira, 5 de julho, na sala Glauber Rocha, diante de toda a escola e dos jurados. Como estava no hospital, perdi um curso voltado para a preparação do pitch, mas não tive muito problema em montar a apresentação.  Tínhamos 8 minutos de apresentação, mais um tempo para que os jurados e o público fizessem perguntas. Ocorreu tudo bem, e a Glauber Rocha estava lotada – o que geralmente não acontece na defesa da tese dos roteiristas, já que quase ninguém lê os
roteiros. Isso se deve à presença de uma jurada ilustre: a diretora argentina Lucrécia Martel (“La Cienaga”, “La Niña Santa”, “La Mujer sin Cabeza”). Além dela, os outros jurados eram Senel Paz, escritor e roteirista cubano (autor de “Fresa y Chocolate”, único filme cubano a ser indicado ao Oscar), José Angel Estéban, roteirista espanhol (“Besos para Todos”, “Los años bárbaros”), e Eliseo Altunaga,
roteirista cubano (“Machuca”, “Violeta se fue a los cielos”). De noite, Lucrécia teve uma conferência com os estudantes na Sala Glauber Rocha. Aí falou sobre novas tecnologias, seus piqueniques tailandeses com Apichatpong Weerasetakul, etc.  Dá para ler com mais detalhes como foi a encontro AQUI.

Avaliação
-
No dia seguinte, sexta-feira 6 de julho, foi a real avaliação, feita a portas fechadas, apenas com os jurados, os chefes da cátedra de roteiro e nós, os estudantes de roteiro. A avaliação durou o dia inteiro, duas horas mais ou menos para que os jurados falem seus pareceres sobre cada um dos quatro roteiros. Em geral, eles gostaram muito do meu “Felis Domesticus”. Senel Paz queria produzir o filme (se fosse produtor hehe) e disse gostar muito de como eu dialogo. José Angel concordava com ele e disse querer ver o filme pronto. Eliseo Altunaga filosofou sobre a cidade de São Paulo, sobre o caos e sobre a estrutura fractal do roteiro – embora pense que eu possa diminuir o número de personagens e deixar alguns finais mais abertos. Lucrécia Martel coincidiu de que achava que eu deveria amarrar menos as histórias e tentar parar de explicar o porquê de cada personagem. Na opinião dela, meus diálogos poderiam ser polidos, embora fosse um mérito que eu tivesse escrito um roteiro inteiro numa língua que não é a minha – o espanhol. No final de tudo, estava muito contente de ter a honra de ter essas pessoas que admiro tanto falando sobre meu roteiro. Leia mais AQUI e AQUI.


Apresentação de projeto por Hernán Musallupi
Depois de já avaliados, estamos atualmente passando por um curso atrasado (o professor não conseguiu vir antes neste ano), de “Apresentação de Projeto” com o produtor argentino Hernán Musalupi (“El Custodio”, “Medianeras”, “Whisky”, “Un mundo maravilloso”, “Hiroshima”, “Gigante”). O curso é bom, mas como é fora de época, dá um pouco de preguiça. No entanto Hernán é um cara de muita experiência e com muitos filmes bons produzidos, e é uma honra conversar com ele sobre o projeto do meu roteiro/futuro filme. A idéia é que ele nos ensine como mover um projeto, quais fundos buscar, que fundo é o ideal para cada filme, como montar o projeto, etc. O curso segue por uma semana mais. Enquanto isso, estou na fase final do meu curta “Filme para poeta cego”, imprimindo os cartazes (feito pela ótima designer cubana Gisele Monzón e impressos em serigrafia) e finalizando os créditos. O filme terá uma pré-estréia aqui na escola dia 23, na semana da avaliação das teses dos documentaristas e dos diretores de ficção. É uma oportunidade para que os jurados como José Luis Guerín e Karim Ainouz vejam o filme e me dêem suas opiniões – o que me deixa nervoso e outra vez bem contente. Agora começa a dura tarefa de organizar as coisas para ir embora: comprar passagem, escolher o que levar, o que deixar, fazer malas e dizer tchau ao meu quarto, a minha gata (que terá um novo dono) e a esses três anos maravilhosos cheio de pessoas maravilhosas. Nó na garganta.

Roteiristas e avaliadores

Pitch

Por Gustavo Vinagre às 11h33

06/05/2012

Isabelle Huppert em Cuba e na EICTV: Just two more things: Voyage et cinéma

Depois de tantas histórias que não viraram texto, como a visita do diretor iraniano Asghar Farhadi, ganhador do Oscar deste ano por melhor filme estrangeiro, ou a visita do fotógrafo brasileiro Walter Carvalho, vou falar das coisas mais recentes, como a visita da gloriosa Isabelle Huppert, uma das mais importantes atrizes contemporâneas.

Isabelle Huppert veio à Cuba pela ocasião da Mostra de Cine Francês de Havana, que completa 15 anos. Ela visitou a escola e deu uma entrevista de duas horas aos estudantes e professores que lotaram a sala Glauber Rocha. Embora muitas das perguntas fossem genéricas e até despropositadas, suas respostas foram sempre pontuais e certeiras. Huppert foi simpática, do seu jeito frio e distanciado, e demonstrou, de maneira simples, o quanto é apaixonada pelo cinema. Depois da entrevista, deixou algumas palavras na parede da escola: “Só duas coisas mais: viagem e cinema”. Divina.

Abaixo, reproduzo um pouco da entrevista.

. Em um momento, você disse que trabalhar com Claude Chabrol era como ser uma borboleta amarrada numa teia... Como assim?

Chabrol é um fantástico diretor e tem tão claro o que quer dizer que ficamos amarrados em sua teia. Mas, ao mesmo tempo, isso permite uma liberdade criativa imensa para o ator, por que podemos criar qualquer coisa que sempre vai servir, uma vez que ele já tem pré-estabelecido tudo o que ele quer.

. No caso de “A cerimônia”, de Chabrol, se nota que você tinha muita química com a outra atriz. Chabrol preparou vocês para alcançar isso?

 Não. Isso aconteceu naturalmente, nas filmagens. Na França não ensaiamos muito. Chegamos, e gravamos.

. Como você escolhe seus papéis?

Para mim, cinema é uma questão autoral. Escolhe meus papéis pelos diretores, por isso, é muito difícil eu fazer um primeiro filme de um diretor. Escolho diretores que acredito que possuem visões inovadoras e muito pessoais sobre o cinema.

. No caso de Haneke, em “A Pianista”, como funcionou o convite para o filme?

Haneke me queria para “Funny Games” e eu neguei o papel. Depois, em seu seguinte filme, eu neguei o papel outra vez. Então, quando ele me ofereceu “A Pianista”, ele disse: “Sem você, não faço o filme”. E eu li o roteiro no avião e achei aquilo impressionante.

. Como você se prepara para seus papéis? Qual o seu método?

Cada papel pede uma preparação distinta. Não tenho método. Cinema não é uma ciência exata e cada filme é como começar do zero.

. No caso de “A Pianista”, um papel tão forte, como isso te afeta emocionalmente? Que marcas esse personagem te deixou?

Os papéis que faço não me afetam em nada. Para mim a interpretação é um processo racional, apesar de intuitivo. Meus papéis não me deixam nenhuma marca emocional, a não ser boas lembranças e os prêmios, claro. (risos)

. Mas então como consegue interpretações tão boas?

Os diretores fazem lindos planos do meu rosto. (risos) Acredito que o ser humano, em geral, não expõe seus sentimentos. As coisas mais fortes que sentimos, tendemos a escondê-las. Chabrol tem um lema: “sem dramas”. Acredito piamente nesse lema.   

. Qual o filme e personagem preferido da sua filmografia?

Não sei e se soubesse não diria. Mas não acredito no conceito de personagem. Eu crio pessoas. O termo personagem é superficial. Acredito em criar pessoas, isso dá outro nível de verdade à interpretação.

. O que você queria ser quando era criança?

Patinadora.

. Bom, sabendo da sua formação em filosofia, eu queria saber se...

Não tenho formação em filosofia.

. Como foi o convite para trabalhar com Brillante Mendoza, diretor filipino?

Já apreciava muito seu trabalho e quando recebi o convite, aceitei. O filme é estupendo e foi uma experiência muito rica, uma vez que Brillante busca uma verdade perto do documentário, trabalhando com não-atores, com situações extremas de esforço físico e emocional. Acredito que meu trabalho no meu filme também foi como não-ator. Não interpretei, minhas emoções são reais nesse filme.

. Você já se convidou para trabalhar com um diretor?

Jamais. Apesar de sempre escolher com quem trabalho, jamais digo “quero trabalhar com você”. Essa é uma arte que desenvolvi durante muitos anos. O segredo é fazer o diretor pensar que é ele quem está te convidando.

. Como foi fazer o filme que está em Cannes este ano?

Qual? Tenho dois filmes em Cannes este ano.

. O do coreano Hong Sang-soo...

Esse filme é lindo, foi incrível, interpreto uma estrangeira em Seul. Se chama “In another country”, é um filme simples e poético. Não tinha nem roteiro. O diretor escrevia o roteiro na noite anterior e tínhamos que decorar o texto pela manhã. Isso é uma prova de que o cinema não tem método nem regras, tudo pode funcionar ou não.

. Nos dois filmes que acaba de mencionar, você é uma turista em outro país. E agora, você está aqui, pela primeira vez em Cuba. Quero saber então, como você definiria o ser francês? (pergunta feita por um estudante francês).

(Silêncio. Risos. A boca de Huppert que se abre, titubeia, não diz nenhuma palavra. Mais risos, um pouco maldosos)

Isso (apontando com a cabeça para quem fez a pergunta).

. Que conselho você daria para um diretor principiante?

Sou péssima com conselhos. Como disse, cinema não tem regras. Depois de fazer 100 filmes, não sou mais sábia que uma pessoa que está fazendo seu primeiro filme, porque cada projeto novo é como começar do zero. Não tem receita. Para mim, fazer cinema é ser um eterno amador. Se você é um profissional do cinema, esqueça, você não está fazendo arte. No cinema em que acredito é necessário ser amador. E na palavra “amador” está contida a palavra “amar”.

Por Gustavo Vinagre às 12h45

22/03/2012

Tabloid e Nader e Simín, uma separação

“Tabloid” (EUA, 2010) de Errol Morris é um divertidíssimo documentário sobre uma ex-Miss Wyoming, com um QI altíssimo, acusada, em 1977, de seqüestrar seu namorado mórmon e de estuprar o pudico rapaz. Um dos méritos de “Tabloid” é conseguir manter o interesse em um documentário de entrevista através de personagens pitorescos e excêntricos e inovar de alguma maneira a linguagem do “talking heads”. Muito interessante como através de um personagem o diretor fala sobre toda uma nação alienada pelo jornalismo de fofoca e de um inconsciente coletivo marcada pelas narrativas melodramáticas. Se existe gênero dentro do documentário, esse seguramente é uma comédia satírica.

“Nader e Simín, uma separação” (Irã, 2011) de Asghar Farhadi, é o filme ganhador do Urso de Ouro de 2011 e do Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano e me pareceu um filme perfeito em todos os aspectos. É quase impossível destacar alguma área do filme, uma vez que tudo está em sintonia. No entanto, acho que algo emblemático desse filme é a maneira de enquadrar, que sempre corrobora a separação do casal protagonista do filme, a separação social e religiosa, a separação entre gerações, entre nações, etc.

Por Gustavo Vinagre às 11h59

Doculab, Viva las Antípodas, Cienfuegos

Já nem sei onde parei este relato. Aconteceu muita coisa desde então. O roteiro de longa-metragem que tenho que escrever como minha tese já passou pela mão de muitos assessores e professores, e segue na luta para transformar-se no que tem que ser. Já tenho uma primeira versão escrita, ainda sem título, e neste momento tenho a semana livre somente para me concentrar em reescrever. Muito contente com a notícia de que Paula Marcovitch  – roteirista de “Temporada de Patos” e “Lake Tahoe” e diretora de “El premio” – será minha professora em maio e também tutora da minha tese.

Bom, faz duas semanas fui ao Festival de Guadalajara, ao DocuLab, um laboratório para documentários em pós-produção que pretende discutir todas etapas desse processo (narrativa, edição, som, distribuição, etc), em que meu quase finalizado “Filme para Poeta Cego” foi um dos participantes. O meu filme foi analisado pelo documentarista mexicano Juan Carlos Rulfo, e foi bem recebido pelo público.  Juntos, todos chegaram à conclusão de que o filme está pronto. Agora mãos à obra para finalizar. O evento como tal é super válido para conhecer pessoas relacionadas ao documentário e recomendo para quem tenha um filme em pós em mãos, no entanto, acho que a seleção peca na escolha da maioria dos filmes participantes, que, no meu ponto de vista, se encontram muito mais em processo de investigação do que de pós-produção – o que pode ser um pouco chato de assistir. Também acho que se selecionassem menos filmes, poderiam discutir mais profundamente cada um dos projetos.

O único filme em competição que tive chance de assistir em Guadalajara foi o magnífico “Viva las Antípodas!” de Kossakovski, um filmaço que está em um nível superior de existência, onde o bem e o mal não existem. O filme retrata 8 lugares distintos, cada um fazendo par com outro, as chamadas antípodas, que são lugares opostos no globo terrestre, coisa difícil de encontrar  devido a imensa quantidade de água na superfície da Terra. Partindo dessa premissa, de retratar lugares geograficamente opostos, o diretor está livre para fazer o que quiser, fazer a câmera girar, saltar, voar. Realmente uma das coisas mais inovadoras que vi nos últimos tempos, e um tapa na cara de quem acha que fazer documentário é só acender uma câmera.

Em seguida, voltei a Cuba, com um pequena parada na escola, justo no dia das finais das olimpíadas eictvianas com direito a karaokê no rapidito. Claro, a cátedra de roteiro foi a vencedora na cantoria. Depois, fui a Cienfuegos, uma cidade a três horas daqui, alcançar meus companheiros de turma em um curso dado em um hotel de frente para o mar. Aí, com a ajuda de um grupo de teatro local que vive numa cidade nuclear que nunca terminou de ser construída (ainda bem, imagina a tragédia com a situação atual do país), provamos cenas do roteiro das nossas teses para ter idéias e voltar a escrever. Não me conectei muito com o curso porque cheguei com 3 dias de atraso, mas valeu a pena pela viagem, Cienfuegos é uma cidade linda, bem cuidada, e o mar por todos os lados...  O professor foi o simpaticíssimo argentino Federico Godfrid, mas sinto que onde aprendi mais a trabalhar com atores foi no curso do ano passado com a professora Catherin Coray e com o ator Haley Joel Osment.

 

A baía

 

A turma

 

Almoço do outro lado do hotel

 

Bienvenidos cuba socialista

 

Carlos trabalha com atrizes em Cienfuegos

 

Centro de Guadalajara

 

Companheiros

 

Fim do curso

 

La tortuga

 

Maria Elena e o professor relaxando

 

O teatro Terry

 

Olhando a cena

 

Os pássaros e o hotel Pasacaballos

 

Patana

 

Pegando a patana para almoçar (barquinho)

 

Praia com Maria

 

Damaris e eu

 

Doculabers

 

En la patana

 

Fim do curso

Por Gustavo Vinagre às 11h57

30/01/2012

De volta

Bom, depois de bilênios sem escrever neste blog, vou tentar recuperar os poucos filmes que vi nas férias e nessas duas semanas de volta às aulas. Fora isso, devo dizer que a emoção de estar no último semestre da escola, escrevendo meu primeiro roteiro de longa-metragem, é uma experiência complexa, que envolve alegria e dor.  Nunca pensei que três anos pudessem passar tão rápido como estes vividos em Cuba.

“We need to talk about Kevin”, não lembro o nome do diretor, o filme é protagonizado pela maravilhosa Tilda Swinton e conta a história de Kevin, que desde a barriga da mamãe dá sinais de ser um psicopata. Uma espécie de “Anjo Malvado” mais realista, um pouco mais distante do gênero de suspense. O mais legal do filme é que se livra de qualquer explicação maniqueísta ou de dar qualquer lógica para a maldade de um jovem, como geralmente vemos na maioria dos filmes gringos, onde os pais são os culpados. Aqui, Kevin é mal e ponto. Por mais que viva bem, por mais que os seus pais o amem. Esse é o ponto forte do filme, junto com a sua estrutura de roteiro com flash backs de diversos momentos da vida do personagem de Tilda Swinton, que estão organicamente colocados e realmente dão a sensação de que são lembranças da personagem. Em minha opinião, o ponto fraco do filme é pecar pelo excesso de metáforas visuais: a cor vermelha que se repete todo o tempo como indício da tragédia que está por vir e ao mesmo tempo já passou.

“Iron Lady”, vale a pena por Meryl Streep, claro. Mas o filme tem uma péssima edição, péssimas decisões de direção – como colocar Margaret Tatcher para flutuar num carrinho – e um péssimo e irritante personagem: o marido de Tatcher que aparece como fantasma em tantos momentos que quase causa vergonha.  A diretora daquele musical “Mamma Mia”.

“50/50” Rapaz certinho tem 50% de chances de sobreviver quando descobre um câncer. Globo, compra esse para a sessão da tarde!

No avião, assisti “O Gato de Botas". Até que foi melhor do que eu esperava para um longa-metragem que trata de uma amizade meio gay entre Antonio Banderas e um ovo vestindo calças.

De volta a escuelita, vi os seguintes filmes:

“Martes, después de navidad” (Romênia, 2010, de Radu Muntean)
O filme tem o mais óbvio dos argumentos: Homem casado precisa decidir se larga ou não sua esposa para ficar com sua amante mais jovem, dentista da sua filha de oito anos. Uma maravilha de filme, com um rigor estilístico invejável, atuações ótimas, e um bom gosto que transborda por todos os lados, especialmente nos enquadramentos fixos e na direção de arte. Uma lição de como transformar a mesma historinha batida em um belo filme.

“Mi felicidad” (Russia, 2010, de Serguei Losnitza).
Esse filme foi censurado pela maneira que retrata o seu país na atualidade. O filme é chocante por apresentar a Rússia como um antro de mafiosos, policiais corruptos e pior, por mostrar toda a população como uns tremendos selvagens carniceiros. Por isso mesmo, o filme é bem violento. A fotografia é maravilhosa, mas o mais interessante é a estrutura do roteiro, que parece a princípio bem aleatória, com personagens principais que do nada desaparecem porque a câmera resolve ir à direção contrária, mas que ao final vai cobrando sentindo numa trama dura, de causar inveja a Tarantino – que provavelmente já deve estar encontrando uma maneira de copiá-la, convertendo-a em mais um de seus espetáculos cômicos.

“Los bolos en Cuba” (Cuba, 2011, Enrique Colina).
O filme retrata a influência russa na memória dos cubanos de hoje depois de tantos anos sob a influência da União Soviética. Como sempre, Colina, que já foi meu professor, tem uma forte veia cômica e não tem a menor dó de ridicularizar seus personagens através da montagem. Como se fosse preciso, porque seus personagens, em geral, já possuem por si mesmos um alto grau de patetismo. O filme é muito bom, adoro o estilo do Colina que, sem que eu busque, me influencia muito como documentarista.   Adoro como ele consegue fazer um filme de verdade popular se burlando justamente das crenças populares, da ignorância de um povo. Minhas opiniões à parte, o filme é muito interessante porque mostra como Cuba é um país que tem como tradição estar apoiado em outro país: primeiro Espanha, depois Estados Unidos, então Rússia e agora, provavelmente, Venezuela e/ou Brasil. E de como essa pequena ilha, que não tem vontades próprias, vive de ideologias e economias emprestadas e de como seu povo vive das memórias desses laços políticos que constantemente se rompem.

“El Bote”, (Alemanha, 1981, de Wolfgang Petersen)
Vi o director´s cut desse filme, que dura mais de 3 horas, e não consegui tirar o olho da tela. O filme se passa inteiro num submarino nazista e está baseado no romance de Lothar G. Buchheim. A claustrofobia é um sentimento constante, e a guerra é vista de uma maneira muito especial – toda através de sons que os marinheiro escutam dentro do submarino. Desesperador.  Aliás, o som é um dos pontos fortes do filme. Depois disso, Petersen foi fazer porcarias em Hollywood como “Air Force One”.

“Morrer como um homem” (Portugal, 2009, João Pedro Rodrigues)
O filme é uma pequena maravilha kitsch, uma mistura de Almodóvar, Apichatpong, John Waters e Fassbinder. Não consigo dizer nada mais. Isso acontece quando gosto muito do filme.

“The Artist” (2012)
 A mais nova bobagem que Hollywood premia. História vazia, recurso de filme mudo injustificado – e ainda mais injustificado é quando o som aparece. Enfim, poderia ser uma comédia romântica de Jennifer Aniston, mas porque é mudo e preto-e-branco o povo acha que é cool.

“Um método perigoso” (Inglaterra, 2011, David Cronenberg)
Na minha opinião, um dos piores filmes de Cronenberg em todos os tempos. Careta, sem nenhum interesse imagético e nem sequer com o ar misterioso da sua recente produção americana. A história é interessante, mas acho que mais interessante é ler Freud e Jung. A atuação de Keira Knightley quase beira o ridículo – o que pode ser bom nesse caso – e o tempo todo eu fiquei imaginando quando o Freud do Viggo Mortensen ia para a cama com o Jung do Michael Fassbender para dar uma animadinha na coisa.

“La muerte de Pinochet” (Chile, 2010, de Berna Perut e Iván Osnovikoff).
O filme segue 5 personagens de diferentes camadas sociais no dia da morte do ditador Pinochet, em 10 de dezembro de 2006, alguns deles ultra pinochetistas e outros completamente anti-Pinochet.  Um interessante documentário, que apresenta os personagens de uma maneira pouco típica para o gênero, com primeiros planos quase indecentes de suas bocas e outros detalhes que beiram o surrealismo.

“Desordem” (China, 2009, de Huan Weikei)
Pessoas que se dedicam a ser atropeladas para conseguir indenizações, porcos que caem de um caminhão e invadem uma estrada, uma gigante barata encontrada na sopa de um restaurante, um supermercado interditado por guardar tamanduás e congelar patas de urso, um dirigível que perigosamente sobrevoa a cidade, um homem que ameaça se jogar de uma ponte, um policial que soluciona uma discussão entre dois cidadãos sugerindo eles irem ao banco trocar uma nota de 50 falsa por duas de 25. Essas são apenas algumas das situações testemunhadas por esse maravilhoso documentário passado na província chinesa de Guangdong.

 

Por Gustavo Vinagre às 08h35

10/12/2011

O Melhor do Festival de Havana é o Brasil

O 33° Festival de Havana tem sido uma agradável surpresa para mim, não só pela quantidade de filmes brasileiros participando, mas pela imensa qualidade da maioria.

No primeiro dia, assisti a “O Abismo Prateado”, de Karim Ainouz, que está na competição de melhor longa. O filme conta um dia na vida de Violeta, depois que é deixada pelo seu marido. Karim faz uma espécie de “road movie” minimalista, todo passado nas ruas caóticas da zona sul carioca, jogando sempre com o melodrama. Não à toa, o filme é todo o tempo pontuado por músicas – inclusive, está baseado na canção “Olhos nos olhos” de Chico Buarque – buscando acentuar o patético dessa lady in distress  interpretada de maneira magistral por Alessandra Negrini. Além disso, o filme tem ótima foto e um ótimo trabalho de som, criando sensações e ambientes incríveis. Infelizmente, o mais fraco é o roteiro, que em alguns momentos se torna um pouco gratuito – quando Violeta, por exemplo, encontra personagens que precisa encontrar para que o diretor possa mostrar a sua tese – mas até isso, se interpretado a partir de um jogo com o melodrama, pode ser justificado.  Ponto alto: Alessandra Negrini dançando aquela canção que diz assim “she is a maniac, maniiiiiaaaac” com uma cara de louca a las personagens de Zulawski.

Já “Trabalhar Cansa”, de Marco Dutra e Juliana Rojas, é um ousado híbrido entre drama social e cinema de horror ou fantástico. Filmado de uma maneira sóbria quase chata, sem grandes atrativos imagéticos, o que contribui muito com a idéia do “cansativo” e sem brilho cotidiano laboral dos personagens, o longa recria as cruéis relações de trabalho do capitalismo selvagem remetendo de maneira muito interessante ao passado escravocrata do Brasil e às lendas populares. Na minha opinião, embora o filme termine muito bem, talvez só fizesse falta um final mais decisivo para a protagonista do filme, uma mulher de classe média que abre um supermercado – no caso, o final mais forte está em seu marido, que não é o protagonista. 

“Desassossego”, filme coordenado por Felipe Bragança com a participação de 14 diretores, é uma pérola de pouco mais de uma hora, feita de fragmentos inspirados a partir de uma suposta carta escrita por uma adolescente. 2/3 da platéia do cinema foi embora nos primeiros 15 minutos, o que só pode ser um bom indício num mundo em que Angelina Jolie dirige filmes. Alguns fragmentos funcionam mais que outros, mas me parece quase impossível não desfrutá-lo. Todo filmado em digital, reflete sobre o próprio desassossego de filmar, de experimentar, de criar, sem buscar perfeição, mas fazer cinema pela necessidade de se expressar, de dizer – por isso mesmo, o filme tem tantos momentos falados. Para mim, “Desassossego” é a pura desburocratização do cinema, é o cinema “fácil” (no bom sentido da palavra), barato e acima de tudo, intuitivo.

“Girimunho”, de Hélcio Marins Jr. e Clarissa Campolina é um delicado trabalho de docu-ficção filmado com não-atores em um pequeno povoado do interior de Minas Gerais. Distinto dos demais filmes, que refletem basicamente sobre personagens incômodos perdidos na cidade, o longa retrata de maneira descritiva o elo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos no interior de um país que ainda guarda suas histórias populares, crenças e canções.

O filme foge da idéia de um conflito convencional a partir de duas lindas protagonistas – duas velhinhas da própria cidade. Como diz uma delas: “Para mim tá tudo sempre bem, já vivi tanta coisa, já vi tanta coisa... Sempre estou bem”. A partir dessa perspectiva desdramatizada dada pela própria personagem, o filme conta o processo de luto de uma viúva que fala com o espírito do seu falecido marido, uma maneira improvável de encarar a morte no mundo ocidental.

“Transeunte” de Erik Rocha é outro filme que emerge seu personagem na urbanidade e joga o tempo todo com os símbolos do melodrama. Praticamente todo filmado em primeiros planos (uma opção ousada para esse tipo de cinema que quase sempre é apaixonado pelos planos abertos) seguimos de perto as sensações de um viúvo aposentado que vive no centro do Rio de Janeiro.Uma fotografia divina, que parece querer entrar no personagem, e outra vez referências a canções amorosas e ao conhecimento popular sobre o amor - por isso mesmo, o co-protagonista do filme é o radinho de pilha do personagem.

“Riscado” de Gustavo Pizzi foi outra ótima surpresa. O filme, cujo referente óbvio é “The Opening Night”, de Cassavettes, tem ótima foto, misturando dois tipos de digital e dois tipos de película, e conta com a atuação mais do que memorável de Karine Teles, também roteirista. Também é muito interessante a maneira em que está estruturado: o conflito aparece apenas nos seus últimos 15 minutos e por algum tempo no meio do longa o espectador pode começar a odiar a simpatia da resignada personagem, mas, por fim, o final é contundente e desfaz essa sensação.   

Ainda preciso mencionar dois curtas de documentário: “A poeira e o Vento” de Marcos Pimentel que, filmado em um pequeno povoado do interior de Minas Gerais, segue a vertente de “Girimunho” falando da vida e da morte, e “Praça Walt Disney” de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, que tem a urbanização de Pernambuco como protagonista, documentado o caos urbano de maneira lúdica através de intervenções e performances.

Muito interessante notar como o espaço urbano efervescente de um país em desenvolvimento e o seu poder sobre as sensações dos personagens é um tema em praticamente todos os filmes. Por exemplo, um símbolo que se repete em pelo menos três das histórias é o tema da construção (em “Abismo Prateado”, “Transeunte” e “Praça Walt Disney” existem prédios sendo construídos). Até mesmo em “Desassossego”, tão fragmentado e polifônico, o tema da vida na cidade está latente durante todo o relato. Nos poucos casos em que os filmes se voltam ao rural, é para buscar um sentido para a vida que, ao julgar pelos filmes urbanos, está perdido nas cidades grandes. Outra coincidência é uma tendência pelo gênero melodramático, seja jogando com ele a partir de uma tendência pós-moderna de auto-referência, seja desdramatizando o melodrama. Como profere um dos personagens de “Desassossego” em um quase manifesto dessa safra: “Todo cinema é melodrama”.

Outro fator interessante de notar, é que muitos dos filmes foram feitos em co-direção entre homens e mulheres – caso de “Trabalhar Cansa”, “Girimunho”, “Praça Walt Disney” e até mesmo “Riscado”, em que não há uma co-direção, mas uma grande participação da atriz/roteirista. Não sei exatamente o que isso indica sobre o cinema nacional, mas sem querer parecer ser místico, acho que fala de um equilíbrio de energias (yin/yang?), de troca, de parceria, enfim, de maturidade, uma maturidade que está nitidamente refletida em cada um desses ótimos filmes.

Por Gustavo Vinagre às 20h32

17/11/2011

Tampopo

“Tampopo” (Japão, 1986, de Jûzô Itami), do japonês “flor dente de leão”, conta a história da viúva Tampopo, dona de um restaurante, que recebe a visita de um caminhoneiro vestido de cowboy que acaba por treiná-la na “arte” de preparar uma sopa de miojo gostosa para levantar o seu decaído negócio.  

Assistir “Tampopo” foi para mim uma experiência mágica, uma sensação de liberdade incrível, assim como o próprio filme é livre de amarras narrativas. Por horas comédia, por horas western, por vezes um filme saído da nouvelle vague com momentos de teatro do absurdo, instantes de pura poesia e até do gênero de gângster, sem falar na instância metalingüística do filme dentro do filme, “Tampopo” é uma sopa de ingredientes tão díspares, mas tão bem dosados, que se torna deliciosa como a própria sopa preparada pela adorável viúva, interpretada por uma atriz de carisma absoluto e que além do mais desprende uma ingenuidade estonteante.

Por falar em ingenuidade, o grande trunfo do filme é ser naïf, qualidade tão difícil de obter como artista e tão rara de encontrar nas produções. “Tampopo”, com todos seus disparates visuais e narrativos, consegue manter um nível tão sincero e de tão pouca pretensão que realmente é de se invejar. Poucas vezes tive essa sensação de estar diante de algo naïf no cinema, apenas com “Harold y Maude” senti essa coisa que tento descrever, mas que é indescritível: esse sentimento de estar diante de algo não só genuíno - porque tem muito filme genuíno por aí - mas que além de genuíno, é totalmente despretensioso. E quando falo de despretensioso não falo de básico, porque esse filme está longe de ser básico. É a maneira de contar uma coisa que em sua essência teria tudo para parecer pretensiosa, mas que está contada de um jeito tão espontâneo, que não é. Isso, eu aplaudo de pé.  Ainda mais se tratando de um filme que também se propõe a ser um ensaio sobre o papel da comida em todas as instâncias da vida humana: no amor, no trabalho, nas convenções sociais, na dor, e até mesmo na morte – e, por fim, no nascimento.  Além de também ser uma sátira ao subgênero dos filmes de gastronomia.

Para mim, “Tampopo” é uma obra-prima raríssima e um filme emocionante em todos os sentidos. Desejo um dia poder fazer um filme assim. O ruim de vê-lo em Cuba é que abre muito o apetite e aqui não tem como ir até a esquina e comer num restaurante japonês. 

Por Gustavo Vinagre às 09h02

10/11/2011

Como Os Satyros tirou um sarro com a minha cara

Este domingo terminou o Festival Internacional de Teatro de Havana. Não posso falar muito, porque, diferente do último festival não fui nada assíduo. Domingo, no entanto, me apressei para ver a única peça que assisti, “Cosmogonia”, do grupo paulistano Os Satyros. Cheguei em Havana e consegui um ingresso. Queria, sobretudo, matar a saudade da terra da garoa.

Como sempre, na hora de começar qualquer espetáculo em Cuba, se forma uma fila que se demora e em que ninguém se entende. A peça chamou bastante atenção por aqui, por que, como divulgaram os poucos meios de comunicação, era algo interativo em que os espectadores tinham que entrar vestidos de enfermeiros. Tenho um meu pé atrás com coisas interativas, mas resolvi encarar. 40 minutos para vestir a galera toda de enfermeiro, mas até aí, divertido, aquele caos alegre que se produz quando há um aglomerado de caribenhos.

Então, começa o desastre: a peça. “Cosmogonia” consegue ser pior auto-ajuda do que “Árvore da Vida” filme do qual, nitidamente, bebe. Primeira impressão: um cenário branco, decorado com bexigas de plástico, e um misterioso pano branco cheio de buracos cobrindo o palco. Tudo bem, eu posso agüentar um cenário brega. Mas não pára por aí. Atores que sussurram os textos para criar uma atmosfera de suspense e reflexão. Pirotecnia barata para tentar dar alguma densidade a um texto vazio sobre se a vida vale à pena. Atuações sem profundidade e nenhum matiz e o pior, a interação consistia em que, em alguns momentos, os atores colocavam a cabeça em um buraco do pano branco, obrigando aos espectadores meterem a cabeça em seus respectivos buracos que ficavam justo em cima delas, e os monólogos dos personagens seguiam por 5 minutos em cima do pano – sem propósito, sem motivação, a não ser a necessidade insuportável que o mundo atual tem de parecer interativo. Realmente, foi um fim de semana bem decepcionante. Fica a dica: gente, mostrar peito é fichinha, cuidem da dramaturgia – e se, dramaturgicamente, é importante ficar pelado e interagir, então melhor.  Quem estiver no Brasil, ultra não recomendo, embora já tenha visto algumas coisas boas dos Satyros – por isso, não desistam do teatro.

 O curso de “Sinopse para a Tese” seguiu muito bem, e consegui escrever a minha no último momento, de uma terceira idéia que tenho para a minha tese. No entanto, ainda não sei qual vou escolher. Estou entre duas, ambas se passam em São Paulo, duas histórias que quero escrever de qualquer maneira, como tese ou não. No fim do curso, cada um dos roteiristas teve que fazer um pitching para 4 professores convidados, e tudo correu super bem – amo fazer pitching, é onde sinto que realmente domino uma história.

O taller noturno de “Dramaturgias Contemporâneas” também foi muito bom e ao longo dessa semana conseguimos levantar uma boa série de características que definem o cinema contemporâneo em relação ao cinema clássico: falamos sobre a épica da cotidianidade (versus a épica do espetáculo do cine clássico), o minimalismo narrativo, a intensificação temporal (dilatação, tempos mortos), uma intenção “mostrativa”/descritiva maior do que narrativa/dramática, a opacidade (versus a transparência fílmica do cine clássico), a evidenciação do artifício (a linguagem em primeiro plano), um hiperrealismo, a falta de limites entre documentário e ficção, personagens incompletos, ocultação deliberada de informação, fragmentação narrativa, personagem problemático  (que não sabe exatamente o que quer), intenção perturbadora (versus a intenção tranqüilizadora do cine clássico), conflito velado, espectador ativo que aporta com um o seu sentido próprio. No cinema clássico, o espectador sente prazer, porque sente que domina a narração, uma vez que sabe tudo sobre os personagens. Na dramaturgia contemporânea, o espectador é obrigado a assumir suas limitações e por vezes se sente incomodado e perplexo.   

Alguns filmes que exemplificaram o curso foram: “Jeanne Dielman”, da belga Chantal Akerman, que dura 3 horas e que mostra o cotidiano de uma dona de casa. “O homem de Londres” e o curta “Epílogo", de Bela Tárr, “Honor de Caballería”, o curta “O Baterista do bolero”, a tetralogia da morte de Gus van Sant (“Gerry”, “Last Days”, “Elephant” e “Paranoid Park”), “Os limites do Controle”, de Jim Jarmusch, “Copia Fiel”, de Kiarostami, “Tropical Malady”, de Apichatpong, “Rosetta”, dos Dardenne.

Baseados nesses filmes, também encontramos algumas constantes formais no cine contemporâneo: edição por vezes injustificada  (quebrando a transparência fílmica), preferência pelos planos abertos que não se intrometem tanto na interioridade dos personagens, o uso do tele-objetivo, uma tendência por não elidir (ou seja, não gerar elipse), planos longos, personagens que atuam pouco, que não tomam iniciativas, observam mais do que atuam (a curva dramática dos personagens está construída através da repetição de ações e não por um crescimento de ações encadeadas que levam a um objetivo claro). A repetição como sistema epistemológico-dramático instaurando uma cosmovisão, outra realidade, outro mundo.   A lógica da acumulação implantando uma narrativa fragmentada.  A debilitação do nexo lógico-causal, a anulação do mesmo, a favor de uma lógica acumulativo-somatória.

Também discutimos que os relatos contemporâneos terminam, mas as histórias não. O relato é interrompido antes de a história terminar, e o espectador precisa “levar o filme para casa”, na cabeça, e terminá-lo, diferentemente do cine clássico, em que o relato e a história terminam ao mesmo tempo, no mesmo momento. 

Depois de duas semanas tão frutíferas, foi difícil a despedida da professora Rosa Teischmann. É sempre mágico encontrar pelo mundo pessoas tão abertas, tão apaixonadas pelo o que fazem, tão estimulantes.

Um dos poucos filmes extra que vi foi “Tabu”, de Nagisa Oshima. Um belo filme que recupera recursos da literatura clássica japonesa para criar uma atmosfera fantástica contando a história de Sozaburo Kano, um guerreiro andrógino que desperta a paixão de todos os homens na sua escola militar. Recomendo.

Esta semana, começamos um curso de “Estruturas” com o grande roteirista cubano Eliseo Altunaga.

 

Por Gustavo Vinagre às 08h45

31/10/2011

Sinopse, Árvore da Vida e O Cavalo de Turín

Como habitualmente tem acontecido, não tenho conseguido atualizar esse blog tanto quanto eu gostaria. O terceiro ano é menos intenso em carga horária, mas é bem mais denso.

Atualmente, estou no taller de” Sinopse para a Tese” com a professora argentina Rosa Teischman, uma aluna da primeira geração da escola que desistiu depois de seis meses  de curso – segundo ela, em 1985, a escola era muito mais precária, o ambiente cubano muito mais hostil, e a comunicação com o exterior muito mais complicada – e que vem dar aula aqui desde 1998. Rosa é uma professora maravilhosa, e tem me ajudado muito no meu processo de tese. Nos três primeiros dias de aula conceituamos bem o que é e como se escreve uma idéia dramática, um story-line, uma premissa e, por fim, uma sinopse. Também estudamos a noções de conflito explícito e velado – o último, muito importante nas narrativas contemporâneas. Para isso, treinamos de um milhão de maneiras (exercícios infinitos), incluindo elaborar tudo isso sobre dois curtas: “O homem sem cabeça”, de Juan Solanas, uma narrativa super clássica e “The skywalk is gonne”, uma pérola nada aristotélica de Tsai Ming-Liang. Em um desses dias, saímos a caminhar pela escola, sem saber bem porque – uma das frases de Rosa é “aceite o mistério”, o que é uma contradição, uma vez que se mostra como uma pessoa cética – e começamos a criar uma história, meus três colegas de classe e eu, baseados apenas no nome de um personagem inventado por ela. 45 minutos depois, segundo Rosa, tínhamos o argumento de um longa-metragem. Embora esse tipo de exercício em grupo tenha sempre um resultado de qualidade contestável, realmente tínhamos um argumento de um longa, e às vezes é bom sentir essa sensação de que a escritura não precisa ser tão sagrada quanto aparenta. Depois desse período de treinamento, começamos a trabalhar sobre as idéias de nossas próprias teses. Basicamente, temos consultas diárias com a professora por 1h30, muito trabalho escrevendo, e depois nos reunimos por mais 1h30 todos juntos e temos que contar, um por um, o quanto evoluímos na nossa história para os demais. Depois disso, todos tem direito de perguntar, e isso ajuda muito a nos aclarar sobre o que realmente queremos contar. Essa semana seguiremos com Rosa, e além desse taller, pelas noites, ela começará outro taller, de Narrativas Contemporâneas, que vamos dividir com os alunos de direção.  

Bom, agora resgatando da memória o que tenho assistido. Vi o “Árvore da Vida”, de Terrence Malick, que me pareceu um disparate de tão ruim. Um filme que tenta com tanto esforço ser poético, filosófico, profundo que, de tanto tentar, não é nada disso. Se esses diretores americanos tivessem menos dinheiro, talvez pudessem ativar um pouco mais a criatividade. O uso da voz em OFF reiterativa, a trilha sonora que tenta o tempo todo causar emoção, a sensação de ser pego de surpresa por um testemunha de Jeová que não larga do seu pé até te doutrinar, a sensação de estar vendo uma versão mais larga de “Use Filtro solar” (na versão original, não na narrada por Pedro Bial), a sensação de estar vendo um filme frígido, sem dor, um filme que deveria se chamar “Os loiros conquistaram o mundo”, um filme tão comercial quanto “Jurassic Park” (embora os dinossauros de Spielberg sejam muito mais interessantes) por mais que tente ir além disso. E o que mais me irrita, se o filme não tivesse o Brad Pitt, ninguém estaria falando dele, seria mais uma tentativa de fazer um filme supostamente “de arte”, os críticos iam achar ruim, e o público não ia vê-lo. Porém como está Brad Pitt, e isso faz o filme ser bem distribuído, todo mundo vê – alguns fingem que gostam para parecer inteligente, outros odeiam – e tem gente que diz que é bom porque causa polêmica. Que preguiça máster...

Vi também “O Rio” (1997), do taiwanês Tsai Ming-Liang, de quem sou fã. Nesse filme, é possível ver lampejos do que viria a ser “O Buraco”, “O sabor da Melancia” e “Que hora es allá?”, e é bem legal notar como o diretor evoluiu nesses anos, indo de uma história um pouco gratuita até a criação de filmes  mais sólidos.

“A dança”, de Frederick Wiseman, um ótimo documentário de 2h39min, sobre o Ballet da Ópera de Paris. O filme acompanha os ensaios dos bailarinos, a busca pela perfeição técnica, algumas apresentações e, para mim o mais interessante, a vida administrativa do balé, tendo a sua diretora como uma grande personagem.

“O Cavalo de Turín”, de Bela Tarr. Filme desafio. Uma foto estupenda que faz qualquer um cagar de inveja do senhor Tarr. Seis dias na vida de um pai, uma filha e seu cavalo, numa casa num ambiente rural, no meio do nada, onde venta sem parar. Os personagens resistem, o espectador resiste. Embora os personagens se afrontem com uma série de problemas, como as intempéries que acometem constantemente o lugar onde vivem, isso é tomado por eles como sua cotidianidade, um afazer mais. Os personagens não têm conflito, o conflito está em quem vê e que deseja que o filme acabe. Um ótimo exemplo de como transferir a jornada do herói dos personagens para o espectador. Eles não se transformam ao longo do filme, quem sai transformado da sala de cinema somos nós, que assistimos. Filmaço.

Essa semana também teve a participação da querida nova-iorquina Ruth Goldberg, que veio dar o taller de Jornada do Herói para os alunos de roteiro do segundo ano – do qual, infelizmente, não pude participar. Como sempre, ela iluminou a minha vida. Assistimos ao corte do curta que estou finalizando, o que me animou muito, porque ela gostou bastante do filme – e eu respeito muito a opinião dela. No sábado, antes de ir embora, ela me deu três caixinhas de chá para a minha tosse pós-pneumonia. Adorável.

Começou o Festival Internacional de Teatro de la Habana, ao qual, infelizmente, não vou poder ser tão freqüente quanto fui no meu primeiro ano – o festival é bienal. Mas uma coisa é certa, sábado que vem verei a apresentação dos Satyros, com uma peça chamada Cosmogonia, para matar a saudade de São Paulo.

Uma coisa que definitivamente tem sido boa neste terceiro ano: cozinhar – e comer – lagosta todos os domingos, com meus queridos amigos. Já levamos mais de um mês seguido comendo esse bicho que aqui é tão barato que vou ficar mal acostumado.  

Por Gustavo Vinagre às 08h49

17/10/2011

Juan de los Muertos

Faz tanto tempo que não escrevo aqui, que nem sei mais...

Duas semanas sem aula, apenas com algumas assessorias com o querido Arturo, chefe da Cátedra de roteiro, para a escritura da minha adaptação de Macbeth. Tive um bloqueio e não consegui aproveitar essas duas semanas, porque todas as minhas energias estão concentradas em editar meu curta “Filme para poeta cego”, no qual estou imerso todas as madrugadas e fins de semana completos na ilha de edição.

Agora, estamos entrando na segunda semana do curso Busca de Idéias para a tese, com o professor espanhol José Angel. É tão difícil decidir por uma história que provavelmente vai me seguir por no mínimo 3 ou 4 anos da minha vida. Estou dividido entre duas e ainda não consigo me mover por nenhuma delas.

Fora isso, assisti “Juan de los Muertos”, a nova febre do cinema cubano. Todos só falam desse filme, que é mega produção, que é dissidente (gusano, como dizem aqui), que é isso, que é aquilo. O filme conta a história de uma Havana invadida por zumbis que são encobertos pelo governo como sendo contra-revolucionários. Apesar do intento de ser político, e do fato positivo de criticar abertamente esta ditadura, o filme se perde no humor escrachado e no trash pelo trash, convertendo o que poderia ter sido uma boa metáfora do estado de sonolência desse povo em mais uma comédia pastelão a la cubana. Sim, para uma produção caribenha, os efeitos especiais são massa.  

Também tivemos a visita do diretor basco Roberto Castón, para a apresentação do seu primeiro longa-metragem “Ander”, exibido na Berlinale em 2009. O filme conta a história de Ander, um fazendeiro solteirão de meia idade do País Basco que vive com a sua mãe e que tem a sua vida mudada quando quebra a perna e contrata um jovem e faceiro empregado peruano para ajudar com os serviços da fazenda – e com outros servicinhos mais. Autodenominado queer, o longa poderia ter sido bom se tivesse diálogos menos explicativos e explícitos e tido um editor mais duro, que cortasse uma hora das suas 2h10. Uma direção formalmente mais rígida também ajudaria: por exemplo, a maneira aleatória com que elege entre câmera em mão e fixa.

Esta sexta-feira aconteceu a festa de iniciação dos bichos da cátedra de roteiro. Foram quatro iniciados: do Brasil, de Costa Rica, de Cuba e da Espanha. A festa foi divertida, com as típicas brincadeiras de exercícios sobre roteiro e “friendly humiliantion” com os bichos. Arturo também leu as cartas dos graduados do ano passado. Isso me fez pensar que é meu último ano aqui, e me deu um frio na barriga, não por medo do que vou encontrar no mundo real, simplesmente por nostalgia adiantada por saber que vai acabar.  

Por fim, neste sábado, assisti “Valentino: The last Emperor”, ótimo documentário sobre o estilista, entretém e ao mesmo tempo faz pensar, frívolo e reflexivo; paradoxos do mundo da moda.

 

Por Gustavo Vinagre às 14h26

21/09/2011

Reescritura da sitcom

Chegar a Cuba para meu terceiro e último ano não foi tão estranho quanto eu imaginava. A volta para o segundo foi muito mais rara, reconhecendo um lugar que já tinha esquecido nas férias. Voltar agora foi como voltar a casa - já sabia exatamente com que ia me encontrar.

Cheguei atrasado, na segunda semana de reescritura da sitcom que em breve vai ser filmada pelos diretores. O curso foi dado pelo ex-aluno Joaquim Otavio, de Porto Rico. Para mim, a reescritura foi cômoda, uma vez que cheguei e os dois capítulos a serem filmados já estavam escritos por meus colegas. Foi muito legal ver como eles tinham colocado no papel idéias que tivemos juntos antes das férias. Mais legal ainda era o meu desapego ao material na hora de reescrever. Apagava muitas coisas sem a menor pena e as mudava, sempre quando para melhor. Meu papel foi de unificar os dois episódios escritos a cinco mãos, dando-lhes coerência, continuidade e assegurando de que os personagens mantivessem o mesmo caráter.  Foi uma semana trabalhosa, mas muito divertida. Não sou tão fã de séries de televisão, mas adoro comédia e o fato de saber que os diretores vão seguramente cagar o exercício não tem tanto peso quanto na pré-tese. O fato de não ser um trabalho de autor, mas sim coletivo, por incrível que pareça me deixou mais livre para criar, mais desapegado.

Fora isso, as típicas festas de começo de ano já começaram. Festa pela independência do México foi este sábado, com comida típica, que sempre é bem vinda, porque a comida do comedor está cada vez pior. Também neste sábado aconteceu a projeção dos 3 minutos do ano passado, em um cinema de La Habana. Não fui ver o trabalho dos colegas porque estava editando o meu próprio curta documentário.

Os alunos deste primeiro ano são extremamente... normais. Acho que isso diz tudo.

Por Gustavo Vinagre às 09h07

30/07/2011

“Melancholia”, pior longa de Lars von Trier, é um filme dopado

Para quem viu o trailer de “Melancholia”, novo filme de Lars von Trier, seguramente vai ficar decepcionado com o longa de exageradas 2h30.


Fui assisti-lo ontem, sexta-feira, em uma pré-estréia.

Resumindo: O filme conta a história de duas irmãs: Justine (alguma inspiração em Sade?), uma frágil mulher perante à vida, e forte perante à morte e seu inverso, Claire, uma mulher forte perante à vida e frágil perante a morte. Metade do filme se foca na festa de casamento de Justine, e a outra metade no literal fim do mundo.

Para começar, é necessário dizer que a construção dos personagens é totalmente despropositada, uma exceção na carreira de Von Trier. A relação entre os personagens é interessante (como no caso das irmãs opostas), no entanto, em si mesmos, falta verossimilhança, falta ações que os humanizem, falta informações.  As atuações de Dunst e de Gainsbourg são realmente dignas de aplausos, ainda mais lidando com personagens que, na minha opinião, são tão difíceis de engolir.

A primeira metade do filme usa da maior quantidade de clichês já vistos em um filme do diretor, fazendo quase uma sátira (das chatas) dos filmes de festas de famílias deterioradas no estilo do dogmático “Festa de Família” e de “O casamento de Rachel”. Em “Melancholia”, contudo, tudo é gratuito, os diálogos são superlativos e caricatos, e os personagens como o do pai e da mãe (ambos com discursos vergonhosos), bem como o do chefe de Justine são mais planos que personagem do “Zorra Total” (programa de comédia da Globo). Para completar, um estagiário abobalhado persegue Justine pedindo um slogan no dia do seu casamento, o ator Udo Kier faz um dos papéis mais vergonhosos de sua carreira (o de uma bichinha afetada que organiza a festa do casamento com momentos cômicos que destoam por completo do filme) e ainda há todo um mistério ao redor do número de feijões brancos depositados num potinho na entrada do casamento cujo desfecho é completamente brochante.

Tirando isso, a fotografia, feita com a nova super câmera Alexa, tem momentos de extrema beleza, como o prólogo do filme, cujos 10 minutos valem pelo filme inteiro e que deixam ver que Trier realmente tem mais influências de seu conterrâneo Jorgen Leth do que o seu documentário “As 5 obstruções” deixa ver. No entanto, passados os 10 minutos iniciais, com alguma boas exceções, a câmera do filme é irritante, buscando uma naturalidade documental que é tão BUSCADA (com maiúsculas) que simplesmente soa como artifício.

Outra decisão contestável do filme, nesse caso de edição, é justamente o belo prólogo, que reúne imagens de uma plasticidade impressionante. O problema é que o prólogo promete demais e logo, o filme não cumpre. E ao longo do filme o espectador se dá conta que as imagens iniciais estavam pensadas como insertos dentro do longa – exemplo, quando Justine descreve a Claire que se via enrolada em fios de lã cinza, ou quando Justine está na banheira (relação com a  imagem de Justine boiando num lago) – e que a decisão de uni-las no início veio da edição.

A trilha sonora, embora genial como sempre, parece querer pontuar momentos de emoção onde a emoção simplesmente não está.

Eu definiria “Melancholia” como um filme sobre a tristeza onde, simplesmente, não se sente nada. E talvez isso, que agora me parece um dos maiores erros do filme, possa ser seu maior acerto (embora não consciente). Todos os personagens agem de maneira bipolar, ora como se tudo lhes importasse (caso de Claire em relação ao casamento de sua irmã), ora como se nada lhes importasse (caso da reação de todos quando o casamento não acontece).  E não é a bipolaridade uma boa definição para o que o mundo vive hoje? O filme de Lars Von Trier tenta extrair emoção gratuitamente, mas o que se vê, realmente, são personagens letárgicos com um conflito moral profundo (encarar ou não suas tristezas mais profundas) transformado em uma metáfora estapafúrdia (um planeta chamado Melancholia vai se chocar contra a Terra) resultando em um filme frio – e frio não no bom sentido de bons filmes desdramatizados como “Canções do Segundo Piso”, por exemplo.

A indagação mais recorrente dos personagens é “Devemos olhar Melancholia?” e no final, a conclusão, apesar de dura e pessimista, é verdadeira: a vida termina; sendo ela triste ou feliz, com medo ou coragem, o nada impera.  Apesar de teoricamente ousado, a sensação em geral é de um roteiro cru, que necessitava algum tempo para amadurecer. Sabendo que Lars Von Trier gravou o filme sob efeitos de álcool e anti-depressivos como revelou seu fotógrafo aqui, fica fácil definir “Melancholia”: um filme dopado, que tenta transmitir algo, mas que não consegue. Só espero que o dinamarquês não esteja prevendo seu próprio futuro.

“Melancholia” me parece ainda assim uma das melhores opções para ver no cinema agora, não pelo que é, que apesar de tudo é interessante, mas especialmente pelo o que poderia ter sido. Para mim foi, basicamente, um filme frustrante. E não é justamente a frustração um dos sentimentos mais tristes?

Por Gustavo Vinagre às 19h28

29/07/2011

Los Pájaros de Hitchcock

Só para recapitular, o exercício de 3 minutos é o final do primeiro ano na EICTV, onde cada aluno, em grupos de 7 ou 8 pessoas, passa por todas as funções num set de rodagem - diretor/roteirista, produtor, som, boom, assistente de direção, fotógrafo, assistente de foto, etc...

No caso, "Los Pájaros de Hitchcock" é meu exercicinho como diretor hehe. Apesar de mega caseiro, tenho carinho especial, pois foi a primeira vez que fiz algo em película. Segue o filme:

Por Gustavo Vinagre às 14h59

26/07/2011

LOLA

26 dias de Brasil, e ainda aclimatando, finalmente volto a escrever aqui. Claro que fora da escola – por sinal, me resta só 1 ano de EICTV – minha freqüência ao cinema cai, infelizmente.

Mas, felizmente, que surpresa, a estréia de “Lola”, do Brillante Mendoza, cineasta que amo e sempre tem um olhar carinhoso e ao mesmo tempo cru sobre a realidade do seu país, as Filipinas. Com uma câmera em mão super documental, Brillante sempre filma seus longas em 10 dias, prova de que muito além de um bom acabamento – o som do filme, por momentos, é bem artificial e pobre – o que importa de verdade é uma boa história e a vontade (e urgência) de contá-la.

Não vou falar muito do filme, já tem críticas demais por aí. Só darei minha humilde opinião: o filme é ótimo e você tá bobeando se não for ver.

Vi o filme no CineSesc – que aliás, é o melhor cinema de rua de São Paulo. Amo a sala ampla, e os preços justos: não só para as entradas, como para as guloseimas. Digno.

Fora isso, fui ver “Família Braz”, de Dorrit Harazim e Arthur Fontes, um documentário que compara a vida de uma família da Brasilândia agora e 10 anos atrás: narrativamente simples, o típico documentário brasileiro com voz em off e entrevistas, mas ainda assim muito interessante de ver pelas drásticas mudanças sociais vividas pela família retratada.

“Cópia Fiel” do Abbas Kiarostami, um jogo interessante sobre cópias e originais que é incorporado pela própria estrutura do filme. Certeza de nada e uma ótima atuação de Juliette Binoche.

“Quebrando o tabu”, de Fernando Grostein, é popular, é direto, é muito tosco por vezes (a animação inicial é digna do programa global Fantástico), mas eu prefiro que ele exista. Vale pela coragem de levantar a bandeira da descriminalização das drogas de maneira tão didática.

No meio de tudo isso, estou em pré-produção do meu curta que envolve poesia, cegueira e sadomasoquismo. Em breve, conto mais sobre ele.

Por Gustavo Vinagre às 15h38

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Sobre o autor

Carioca paulistano, 24 anos, poeta do signo de Áries. Formado em Letras pela USP, agora estuda roteiro na Escuela Internacional de Cine y Television de San Antonio de los Banos, Cuba.

Sobre o blog

Impressões sobre Cuba e relatos sobre o dia-a-dia na Escuela Internacional de Cine - os filmes que assistimos e discutimos, os exercícios, as festas, os alunos, os professores.