UOL Cinema

Cuba na Cam

17/11/2011

Tampopo

“Tampopo” (Japão, 1986, de Jûzô Itami), do japonês “flor dente de leão”, conta a história da viúva Tampopo, dona de um restaurante, que recebe a visita de um caminhoneiro vestido de cowboy que acaba por treiná-la na “arte” de preparar uma sopa de miojo gostosa para levantar o seu decaído negócio.  

Assistir “Tampopo” foi para mim uma experiência mágica, uma sensação de liberdade incrível, assim como o próprio filme é livre de amarras narrativas. Por horas comédia, por horas western, por vezes um filme saído da nouvelle vague com momentos de teatro do absurdo, instantes de pura poesia e até do gênero de gângster, sem falar na instância metalingüística do filme dentro do filme, “Tampopo” é uma sopa de ingredientes tão díspares, mas tão bem dosados, que se torna deliciosa como a própria sopa preparada pela adorável viúva, interpretada por uma atriz de carisma absoluto e que além do mais desprende uma ingenuidade estonteante.

Por falar em ingenuidade, o grande trunfo do filme é ser naïf, qualidade tão difícil de obter como artista e tão rara de encontrar nas produções. “Tampopo”, com todos seus disparates visuais e narrativos, consegue manter um nível tão sincero e de tão pouca pretensão que realmente é de se invejar. Poucas vezes tive essa sensação de estar diante de algo naïf no cinema, apenas com “Harold y Maude” senti essa coisa que tento descrever, mas que é indescritível: esse sentimento de estar diante de algo não só genuíno - porque tem muito filme genuíno por aí - mas que além de genuíno, é totalmente despretensioso. E quando falo de despretensioso não falo de básico, porque esse filme está longe de ser básico. É a maneira de contar uma coisa que em sua essência teria tudo para parecer pretensiosa, mas que está contada de um jeito tão espontâneo, que não é. Isso, eu aplaudo de pé.  Ainda mais se tratando de um filme que também se propõe a ser um ensaio sobre o papel da comida em todas as instâncias da vida humana: no amor, no trabalho, nas convenções sociais, na dor, e até mesmo na morte – e, por fim, no nascimento.  Além de também ser uma sátira ao subgênero dos filmes de gastronomia.

Para mim, “Tampopo” é uma obra-prima raríssima e um filme emocionante em todos os sentidos. Desejo um dia poder fazer um filme assim. O ruim de vê-lo em Cuba é que abre muito o apetite e aqui não tem como ir até a esquina e comer num restaurante japonês. 

Por Gustavo Vinagre às 09h02

10/11/2011

Como Os Satyros tirou um sarro com a minha cara

Este domingo terminou o Festival Internacional de Teatro de Havana. Não posso falar muito, porque, diferente do último festival não fui nada assíduo. Domingo, no entanto, me apressei para ver a única peça que assisti, “Cosmogonia”, do grupo paulistano Os Satyros. Cheguei em Havana e consegui um ingresso. Queria, sobretudo, matar a saudade da terra da garoa.

Como sempre, na hora de começar qualquer espetáculo em Cuba, se forma uma fila que se demora e em que ninguém se entende. A peça chamou bastante atenção por aqui, por que, como divulgaram os poucos meios de comunicação, era algo interativo em que os espectadores tinham que entrar vestidos de enfermeiros. Tenho um meu pé atrás com coisas interativas, mas resolvi encarar. 40 minutos para vestir a galera toda de enfermeiro, mas até aí, divertido, aquele caos alegre que se produz quando há um aglomerado de caribenhos.

Então, começa o desastre: a peça. “Cosmogonia” consegue ser pior auto-ajuda do que “Árvore da Vida” filme do qual, nitidamente, bebe. Primeira impressão: um cenário branco, decorado com bexigas de plástico, e um misterioso pano branco cheio de buracos cobrindo o palco. Tudo bem, eu posso agüentar um cenário brega. Mas não pára por aí. Atores que sussurram os textos para criar uma atmosfera de suspense e reflexão. Pirotecnia barata para tentar dar alguma densidade a um texto vazio sobre se a vida vale à pena. Atuações sem profundidade e nenhum matiz e o pior, a interação consistia em que, em alguns momentos, os atores colocavam a cabeça em um buraco do pano branco, obrigando aos espectadores meterem a cabeça em seus respectivos buracos que ficavam justo em cima delas, e os monólogos dos personagens seguiam por 5 minutos em cima do pano – sem propósito, sem motivação, a não ser a necessidade insuportável que o mundo atual tem de parecer interativo. Realmente, foi um fim de semana bem decepcionante. Fica a dica: gente, mostrar peito é fichinha, cuidem da dramaturgia – e se, dramaturgicamente, é importante ficar pelado e interagir, então melhor.  Quem estiver no Brasil, ultra não recomendo, embora já tenha visto algumas coisas boas dos Satyros – por isso, não desistam do teatro.

 O curso de “Sinopse para a Tese” seguiu muito bem, e consegui escrever a minha no último momento, de uma terceira idéia que tenho para a minha tese. No entanto, ainda não sei qual vou escolher. Estou entre duas, ambas se passam em São Paulo, duas histórias que quero escrever de qualquer maneira, como tese ou não. No fim do curso, cada um dos roteiristas teve que fazer um pitching para 4 professores convidados, e tudo correu super bem – amo fazer pitching, é onde sinto que realmente domino uma história.

O taller noturno de “Dramaturgias Contemporâneas” também foi muito bom e ao longo dessa semana conseguimos levantar uma boa série de características que definem o cinema contemporâneo em relação ao cinema clássico: falamos sobre a épica da cotidianidade (versus a épica do espetáculo do cine clássico), o minimalismo narrativo, a intensificação temporal (dilatação, tempos mortos), uma intenção “mostrativa”/descritiva maior do que narrativa/dramática, a opacidade (versus a transparência fílmica do cine clássico), a evidenciação do artifício (a linguagem em primeiro plano), um hiperrealismo, a falta de limites entre documentário e ficção, personagens incompletos, ocultação deliberada de informação, fragmentação narrativa, personagem problemático  (que não sabe exatamente o que quer), intenção perturbadora (versus a intenção tranqüilizadora do cine clássico), conflito velado, espectador ativo que aporta com um o seu sentido próprio. No cinema clássico, o espectador sente prazer, porque sente que domina a narração, uma vez que sabe tudo sobre os personagens. Na dramaturgia contemporânea, o espectador é obrigado a assumir suas limitações e por vezes se sente incomodado e perplexo.   

Alguns filmes que exemplificaram o curso foram: “Jeanne Dielman”, da belga Chantal Akerman, que dura 3 horas e que mostra o cotidiano de uma dona de casa. “O homem de Londres” e o curta “Epílogo", de Bela Tárr, “Honor de Caballería”, o curta “O Baterista do bolero”, a tetralogia da morte de Gus van Sant (“Gerry”, “Last Days”, “Elephant” e “Paranoid Park”), “Os limites do Controle”, de Jim Jarmusch, “Copia Fiel”, de Kiarostami, “Tropical Malady”, de Apichatpong, “Rosetta”, dos Dardenne.

Baseados nesses filmes, também encontramos algumas constantes formais no cine contemporâneo: edição por vezes injustificada  (quebrando a transparência fílmica), preferência pelos planos abertos que não se intrometem tanto na interioridade dos personagens, o uso do tele-objetivo, uma tendência por não elidir (ou seja, não gerar elipse), planos longos, personagens que atuam pouco, que não tomam iniciativas, observam mais do que atuam (a curva dramática dos personagens está construída através da repetição de ações e não por um crescimento de ações encadeadas que levam a um objetivo claro). A repetição como sistema epistemológico-dramático instaurando uma cosmovisão, outra realidade, outro mundo.   A lógica da acumulação implantando uma narrativa fragmentada.  A debilitação do nexo lógico-causal, a anulação do mesmo, a favor de uma lógica acumulativo-somatória.

Também discutimos que os relatos contemporâneos terminam, mas as histórias não. O relato é interrompido antes de a história terminar, e o espectador precisa “levar o filme para casa”, na cabeça, e terminá-lo, diferentemente do cine clássico, em que o relato e a história terminam ao mesmo tempo, no mesmo momento. 

Depois de duas semanas tão frutíferas, foi difícil a despedida da professora Rosa Teischmann. É sempre mágico encontrar pelo mundo pessoas tão abertas, tão apaixonadas pelo o que fazem, tão estimulantes.

Um dos poucos filmes extra que vi foi “Tabu”, de Nagisa Oshima. Um belo filme que recupera recursos da literatura clássica japonesa para criar uma atmosfera fantástica contando a história de Sozaburo Kano, um guerreiro andrógino que desperta a paixão de todos os homens na sua escola militar. Recomendo.

Esta semana, começamos um curso de “Estruturas” com o grande roteirista cubano Eliseo Altunaga.

 

Por Gustavo Vinagre às 08h45

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Sobre o autor

Carioca paulistano, 24 anos, poeta do signo de Áries. Formado em Letras pela USP, agora estuda roteiro na Escuela Internacional de Cine y Television de San Antonio de los Banos, Cuba.

Sobre o blog

Impressões sobre Cuba e relatos sobre o dia-a-dia na Escuela Internacional de Cine - os filmes que assistimos e discutimos, os exercícios, as festas, os alunos, os professores.