UOL Cinema

Cuba na Cam

16/07/2012

Martha Marcy May Marlene

Martha Marcy May Marlene (USA, 2011, de Sean Durkin).

Esse é o primeiro longa do diretor americano Sean Durkin, que ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Sundance 2011. É um filme de uma sobriedade invejável – ainda mais tendo em conta o país de produção – e de um minimalismo que nunca é chato, e nunca deixa de interessar. É a história de Martha (interpretada pela ótima revelação Elizabeth Olsen, irmã menor das peruas gêmeas Olsen) uma jovem dividida entre seu passado em uma bizarra comunidade campestre meio hippie meio nazi, e sua chegada à casa de sua irmã, recém casada e burguesa.  Os envolventes e sufocantes ambientes sonoros e as interessantes maneiras de fazer flashbacks constroem de uma maneira cheia de suspense o drama de Martha (às vezes Marcy May, às vezes Marlene), um ser em constante inadequação – seja no ambiente de falsa liberdade libertina, seja no lugar do capitalismo selvagem (representado pela imensa casa da irmã e de seu cunhado yuppie): um pouco como eu vou me sentir depois de sair dessa escola/fazenda. Martha Marcy May Marlene” é uma ótima reflexão sobre a falta de novas ideologias (e a corrupção das antigas) e de propostas de como ver e viver o mundo.  O final do filme diz literalmente: não há para onde ir e esse personagem sempre vai ser chamado a aderir a um mundo o ao outro, embora sinta que não pertence a nenhum lugar.

 

Eu e Lucrécia - destruicao total pós-avaliacao

Eliseo Altunaga - ele não está dormindo

Fala Lucrécia

Minha avaliação

Por Gustavo Vinagre às 11h49

A Tese

Faltam duas semanas para a festa de graduação. Frio na barriga completo e absoluto. E eu, claro, na loucura de escrever minha tese, ser avaliado, etc, não escrevo aqui faz muito tempo. Por isso, vou tentar fazer uma retrospectiva do que aconteceu nos últimos dois meses.

Cenas e Sequencias por Lola Mayo - Curso de “Cenas e sequências para a tese” com a roteirista espanhola Lola Mayo (“El muerto y ser feliz”, “La Mujer sin Piano”, “Lo que sé de Lola”).  Bom, no meu caso, o trabalho foi muito mais complexo que ajustar cenas. Estava descontente com meu roteiro já escrito, e sentia que embora pudesse funcionar não era o que me urgia contar. Sabia que não podia me graduar com algo simplesmente correto e que não refletisse minhas inquietações mais profundas. Foi assim que me livrei dessa história anterior, e me joguei numa empreitada arriscada, já que faltava pouquíssimo tempo para entregar a versão final para a avaliação. Lola passou então de uma simples assessora a ser minha tutora da tese. Com ela, construí uma história coral, sobre o caos da cidade de São Paulo, uma mescla entre documentário e ficção, que a princípio se chamava “São Paulo SM”, depois “São Paulo XXX” e por fim, “Felis Domesticus”.  No processo com Lola, cheguei a uma primeira versão satisfatória. Minha inspiração maior foi São Paulo, personagens que conheci, crimes reais divulgados pela mídia, e o filme “Canções do Segundo Piso” de Roy Andersson.  Escrevi o roteiro de 80 páginas de uma vez, em uma semana, e descobri que esse é o processo mais satisfatório para mim. O processo ensinado pela escola, começando por story-line, seguido de sinopse, argumento, etc, simplesmente acaba com o meu interesse pela história e freia meu processo criativo. Isso para mim foi um dos maiores aprendizados.

Diálogos por Maria Novaro - O curso seguinte foi de “Diálogos para a tese” com a roteirista mexicana Beatriz Novaro (“El princípio de la espiral”, “Viaje Redondo”, “Danzon”, “Lola”). O curso foi tranqüilo, Maria é uma pessoa elegante que transmite muita confiança. Foi ela que me alertou para ter cuidado com a reescritura excessiva e suas conseqüências daninhas, afastando o escritor de idéias iniciais que em geral são boas. Ela estava contente com o resultado do meu roteiro e me ajudou a me sentir seguro do que eu tinha. Vimos juntos “Danzón”, filme roteirizado por Beatriz e dirigido por sua irmã Maria Navarro que também estava dando um curso na escola, e foi emocionante – um desses filmes que qualifico como naif”, que sempre me impressionam quando vejo, porque com super pouco conseguem transmitir doçura: algo que pode ser super brega no cinema.

Roteiro desde a direção por Paula Marcovitch- Em seguida, veio o curso “O roteiro desde a direção”, com a roteirista e diretora argentina-mexicana Paula Marcovitch (roteirista de “Temporada de Patos”, “Lake Tahoe”, entre outros, e diretora do sensacional “El Premio”). Paula também estava muito contente com meu roteiro, embora tenha proposto um interessante exercício. Definir para mim mesmo cada um dos conflitos dos meus mais de 40 personagens (!!!), para assim poder fortalecer o clímax de cada um deles, já que ela via que o filme se tornava repetitivo ao se aproximar do final. O trabalho com Paula foi super interessante. Vimos seu primeiro filme como diretora “El premio” e o comparamos com o seu roteiro original. Já tinha visto o filme no Festival de Havana, e todos deveriam vê-lo: é incrível. Fizemos o mesmo exercício com “O Silêncio” de Bergman, que escrevia seus roteiros como se fossem contos. O mais lindo que ela me ensinou sobre roteiro veio da idéia – que defende a unhas e dentes – de que o roteiro é e deve ser considerado como uma obra literária em si, assim como uma peça de teatro. Para Paula, os roteiros deveriam ser publicados inclusive antes de virarem filmes e os formatos pré-estabelecidos de escritura só existem para
que os filmes se pareçam todos entre si. Paula é uma revolucionária, ela tem raiva dentro dela, e adoro seus radicalismos: “Um roteiro não tem nada de específico, a poesia não tem nada de específico, o teatro não tem nada de específico, nem o cinema. Se está projetado num cinema, é cinema. Se é um livro de poesia, o que está dentro é poesia. Se está num palco, é teatro. A pureza dos meios é uma ilusão, e buscar o específico de cada meio é uma idiotice. Agora mesmo, você pode sair com um poema e filmá-lo sem sequer fazer uma adaptação. Atualmente, a
situação do roteiro é um paradoxo. É literatura feita para não ser lida, serve apenas para que um assistente de direção e um produtor rabisquem coisas com suas canetas”. É polêmico e eu adoro.  Muito do que aprendi com Paula também veio em conversas no bar da escola, em geral sobre produção e sobre a necessidade de um artista cuidar sua obra, desde a escritura, passando pela direção e produção. Paula
sempre esteve descontente do resultado dos filmes feitos a partir dos roteiros que escrevia. Depois de anos escrevendo roteiros e reclamando da direção alheia, decidiu dirigir. Todos diziam: “agora você vai parar de reclamar e ver o que é de verdade a direção”. Ela dirigiu e calou a boca de todos. “El Premio” foi premiado no mundo todo e o mais importante: é um filme estupendo.

Hospital Nacional
- Depois desse “último curso”, tivemos algum tempo livre para reescrever e entregar a tese. Entreguei a tese e em seguida adoeci, com uma
infecção pulmonar e uma sinusite aguda, que me fizeram passar 20 dias no hospital Nacional em Havana tomando antibiótico na veia, com febre e uma dor de cabeça insuportável. Fui super bem atendido - em partes por ser estrangeiro - fizeram muitos exames, um check up completo. No entanto, a falta de infra-estrutura ainda pode chocar a algumas pessoas. Apesar de ter bons equipamentos (fiz duas tomografias em duas máquinas diferentes) o prédio do hospital tem água caindo pelo lado de fora 24 horas por dia por um problema na caixa de água – quem vê de dentro pensa que está chovendo. Eu estava internado no melhor quarto do hospital: um quarto para 5 pessoas com um banheiro mínimo onde quase nunca tem água. Você precisa buscar água com um balde em outro andar do hospital para tomar banho e dar descarga. Enfim, detalhes que para alguns podem parecer estranhos, mas que para qualquer cubano é normal e, pelo menos no meu caso, foram facilmente esquecidos pela simpatia dos cubanos que me atendiam e pelo profissionalismo dos médicos.

Pitch
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De volta à escola, eu tive apenas um dia para organizar meu pitch, que foi feito na quinta-feira, 5 de julho, na sala Glauber Rocha, diante de toda a escola e dos jurados. Como estava no hospital, perdi um curso voltado para a preparação do pitch, mas não tive muito problema em montar a apresentação.  Tínhamos 8 minutos de apresentação, mais um tempo para que os jurados e o público fizessem perguntas. Ocorreu tudo bem, e a Glauber Rocha estava lotada – o que geralmente não acontece na defesa da tese dos roteiristas, já que quase ninguém lê os
roteiros. Isso se deve à presença de uma jurada ilustre: a diretora argentina Lucrécia Martel (“La Cienaga”, “La Niña Santa”, “La Mujer sin Cabeza”). Além dela, os outros jurados eram Senel Paz, escritor e roteirista cubano (autor de “Fresa y Chocolate”, único filme cubano a ser indicado ao Oscar), José Angel Estéban, roteirista espanhol (“Besos para Todos”, “Los años bárbaros”), e Eliseo Altunaga,
roteirista cubano (“Machuca”, “Violeta se fue a los cielos”). De noite, Lucrécia teve uma conferência com os estudantes na Sala Glauber Rocha. Aí falou sobre novas tecnologias, seus piqueniques tailandeses com Apichatpong Weerasetakul, etc.  Dá para ler com mais detalhes como foi a encontro AQUI.

Avaliação
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No dia seguinte, sexta-feira 6 de julho, foi a real avaliação, feita a portas fechadas, apenas com os jurados, os chefes da cátedra de roteiro e nós, os estudantes de roteiro. A avaliação durou o dia inteiro, duas horas mais ou menos para que os jurados falem seus pareceres sobre cada um dos quatro roteiros. Em geral, eles gostaram muito do meu “Felis Domesticus”. Senel Paz queria produzir o filme (se fosse produtor hehe) e disse gostar muito de como eu dialogo. José Angel concordava com ele e disse querer ver o filme pronto. Eliseo Altunaga filosofou sobre a cidade de São Paulo, sobre o caos e sobre a estrutura fractal do roteiro – embora pense que eu possa diminuir o número de personagens e deixar alguns finais mais abertos. Lucrécia Martel coincidiu de que achava que eu deveria amarrar menos as histórias e tentar parar de explicar o porquê de cada personagem. Na opinião dela, meus diálogos poderiam ser polidos, embora fosse um mérito que eu tivesse escrito um roteiro inteiro numa língua que não é a minha – o espanhol. No final de tudo, estava muito contente de ter a honra de ter essas pessoas que admiro tanto falando sobre meu roteiro. Leia mais AQUI e AQUI.


Apresentação de projeto por Hernán Musallupi
Depois de já avaliados, estamos atualmente passando por um curso atrasado (o professor não conseguiu vir antes neste ano), de “Apresentação de Projeto” com o produtor argentino Hernán Musalupi (“El Custodio”, “Medianeras”, “Whisky”, “Un mundo maravilloso”, “Hiroshima”, “Gigante”). O curso é bom, mas como é fora de época, dá um pouco de preguiça. No entanto Hernán é um cara de muita experiência e com muitos filmes bons produzidos, e é uma honra conversar com ele sobre o projeto do meu roteiro/futuro filme. A idéia é que ele nos ensine como mover um projeto, quais fundos buscar, que fundo é o ideal para cada filme, como montar o projeto, etc. O curso segue por uma semana mais. Enquanto isso, estou na fase final do meu curta “Filme para poeta cego”, imprimindo os cartazes (feito pela ótima designer cubana Gisele Monzón e impressos em serigrafia) e finalizando os créditos. O filme terá uma pré-estréia aqui na escola dia 23, na semana da avaliação das teses dos documentaristas e dos diretores de ficção. É uma oportunidade para que os jurados como José Luis Guerín e Karim Ainouz vejam o filme e me dêem suas opiniões – o que me deixa nervoso e outra vez bem contente. Agora começa a dura tarefa de organizar as coisas para ir embora: comprar passagem, escolher o que levar, o que deixar, fazer malas e dizer tchau ao meu quarto, a minha gata (que terá um novo dono) e a esses três anos maravilhosos cheio de pessoas maravilhosas. Nó na garganta.

Roteiristas e avaliadores

Pitch

Por Gustavo Vinagre às 11h33

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Sobre o autor

Carioca paulistano, 24 anos, poeta do signo de Áries. Formado em Letras pela USP, agora estuda roteiro na Escuela Internacional de Cine y Television de San Antonio de los Banos, Cuba.

Sobre o blog

Impressões sobre Cuba e relatos sobre o dia-a-dia na Escuela Internacional de Cine - os filmes que assistimos e discutimos, os exercícios, as festas, os alunos, os professores.